Luz do Eterno por  Anna Lou Olivier
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Filantropia, o que há de novo (ou lucrativo) nisso? (Artigo e comunicado)


Antes de discorrer sobre filantropia, preciso explicar, resumidamente, o que me leva hoje a escrever este artigo.


Venho de uma família que sempre praticou a filantropia apenas para melhorar o mundo. Há setenta anos, meu pai Nardino Francisco de Oliveira e minha mãe Lourdes Reçuto de Oliveira fundaram três bairros em São Paulo, capital e seguiram trazendo melhorias, cederam moradia, água, luz elétrica, escola, posto de saúde, tudo gratuitamente. Acolheram também 400 cães e inúmeros gatos de rua, enquanto viveram. Tudo com recursos próprios, sem sequer pensarem em pedir algum donativo, a verba vinha do trabalho duro que iniciava as três da manhã e terminava por volta da meia noite. Isso para eles era normal. Não pensavam em fundar ONGs ou OSCIPs não faziam selfies com as crianças ou os bichos abandonados nem campanhas de arrecadação nem sonhavam em saber o que era crowdfunding. Nem sequer imaginavam que seus filhos seguiriam seus passos em tudo, inclusive na inocência, e que mundo (e tipo de filantropia) enfrentariam hoje.


Em uma memorável palestra que assisti, há alguns anos, ouvi atentamente a palestrante, com idade para ser minha filha, anunciar os diversos recursos do “terceiro setor”. O quanto uma empresa pode “ganhar” se souber “investir” em filantropia.


Uma empresa pode, por exemplo “limpar” sua marca pois, ao praticar a filantropia, faz com que todos percebam sua importância como mantenedora da vida, do meio ambiente, da educação, etc. Isso pode ser útil quando a marca tem alguma “mancha” no passado (ou no presente). Pode-se também usar a filantropia, entre outras coisas, para lavagem de dinheiro...


Quando a palestrante citou esta hipótese, eu, inocentemente, pedi a palavra e perguntei:

- Mas e quem pratica a filantropia apenas para melhorar o mundo em que vivemos?

- Senhora – respondeu a palestrante – Isso não existe!


Entre risos e murmurinhos do público, a palestrante reiniciou sua palestra e eu, cabisbaixa, precisei admitir para mim mesma. Não há, nesta época em que vivemos, lugar para os elevados, os desprendidos, os que praticam o bem apenas pelo bem. Tudo tem que ter um “ganho”, tudo tem que ser “materializado”, o espiritualizado se reserva aos desencarnados ou mortos, ocasião inclusive em que todos se tornam anjinhos, todos se manifestam de forma suave, em voz baixa e trazendo mensagens de paz e harmonia... Mas este é tema para outro artigo.

Voltando ao tema principal...


A sociedade civil divide-se basicamente em três setores: O primeiro formado pelo Governo, o segundo pelas empresas privadas, e o terceiro setor por associações sem fins lucrativos. Teoricamente este terceiro setor faz ações solidárias cobrindo o que o Governo não cobre. As ONGs (Organizações Não Governamentais) e OSCIPs (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público) são formadas por voluntários e são, ao menos teoricamente, sem fins lucrativos. Na maioria dos casos recebem donativos das empresas do segundo setor e, em alguns casos, também do Governo que é primeiro setor. Isto é o que se chama “filantropia”


A “filantropia estratégica” é um termo moderno e cresce cada dia mais, em nível mundial, especialmente no Brasil que entende ser a melhor alternativa para as empresas que querem “causar o máximo de impacto perante a comunidade dispondo do mínimo de recursos”. Inclusive, especialistas no assunto aconselham que, ao invés de “desperdiçar” seus recursos filantrópicos auxiliando diversas entidades, a empresa deve abraçar uma única causa e investir em marketing pesado para “ficar conhecida por esta determinada causa”.


É assim que empresas que patrocinam rodeios podem ser conhecidas como “amigas da natureza”, empresas que testam em animais e até utilizam componentes de origem animal em suas fórmulas podem ficar conhecidas como “preservadoras do meio ambiente”, empresas que atuam com trabalho escravo viram “incentivadoras da educação infantil”, modelos altamente bancadas por empresas “tudo de ruim”, de repente aparecem engajadas em campanha de defesa de algum animal em risco de extinção e por ai vai. O que vale aqui não é a verdade é o “investir em um único segmento de pilantropia, ops... filantropia”


Este é o primeiro erro que percebo que minha família tem cometido estes anos todos. Qualquer pessoa ou entidade que peça, às vezes nem pedem, nós é que oferecemos, já é prontamente atendida. Ano passado, por exemplo, abracei a causa dos deficientes intelectuais e físicos e dei continuidade ao auxilio aos animais abandonados. Cheguei a doar um lote de livros (recursos próprios) que autografei na REATECH e dividi a verba entre a Associação de pais Inspirare, que continua ativa e o Gatomóvel que hoje segue em outros moldes, exatamente por falta de verba. Auxiliei outras entidades em outros segmentos também como veganismo e defesa do meio ambiente, enquanto isso, meu irmão engajou-se na luta pelos animais envenenados no interior de São Paulo e, como já foi dito, esta é uma péssima “estratégia de marketing”, segundo especialistas, deve-se escolher uma única causa e “investir nela".


No entanto, por mais que se oriente sobre como se “beneficiar” “investindo” no “terceiro setor”, continuo atendendo a todos que precisam. Ou melhor, continuei ate hoje quando abri uma mensagem de uma pessoa “sem noção” acusando-nos de “angariar fundos” para utilizarmos em benefício próprio. Não é a primeira vez que alguém interpreta mal nosso altruísmo mas será a última pois trago este tema ao público por que, além de estar com a consciência tranquila, penso ser a única forma de resolver uma questão que vai além do comercial, busca denegrir a imagem de meus pais que tudo inciaram.


Durante sessenta e sete anos (a família e eu) bancamos tudo com recursos próprios, deixando bem frisado que não pedíamos nem aceitávamos donativos. Mas veio a crise e precisamos pedir ajuda para continuar ajudando. Lancei o e-book solidário, com renda toda doada aos animais e pessoas deficientes, lancei uma campanha de crowdfunding para viabilizar os projetos do Vampirinho Vegano em animação 3D e das palestras gratuitas sobre Dislexia Adquirida da qual sou detectora e defensora mas as arrecadações foram irrisórias. No total, com todas as campanhas e vendas não arrecadei nem R$500,00. Isso mesmo que você leu, não consegui nem quinhentos míseros reais que, por sinal, foram doados na totalidade. Alguns poucos amigos colaboraram, alguns empenharam-se em ajudar a divulgar as iniciativas mas a grande maioria ficou mesmo no” tapinha nas costas” e nos elogios ao altruísmo das minhas ações...


Na atualidade, eu tenho produzido sozinha os episódios em animação 3D do vampirinho, já há quatro episódios em que eu faço tudo, textos, direção, produção, vozes, músicas, veiculação... também tenho palestrado sobre dislexia na medida do possível com recursos próprios e estou parada com as outras atividades por estar recuperando-me de (mais) um acidente. E hoje constato o que eu já deveria ter percebido há muito tempo quando voluntariei numa clínica de recuperação de toxicômanos, onde o lema era: “ninguém dá o que não tem”.


De fato, com este triste quadro descritivo do que vem a ser filantropia no mundo empresarial, com o fracasso de minhas campanhas de arrecadação e de vendas voltadas à doação e ainda, de tempos em tempos, algum enviado de ha satan (conhecido popularmente como satanás ou o oponente/inibidor em hebraico) invadindo meus e-mails e inbox do facebook para acusações infundadas e calúnias, já passa da hora de admitir que não se doa o que não se tem.

A partir de agora, pessoas, ONGs, OSCIPs e quem mais necessitar de donativos, deverão pegar senha e aguardar quando eu tiver recursos PRÓPRIOS como sempre tive. Isso inclui também conhecimentos que, exceto no blog Luz do Eterno que continuará orientando gratuitamente, todas as outras áreas as quais ESTUDEI e INVESTI muito tempo e dinheiro para saber o que hoje sei, serão cobrados. E-book solidário terá apenas porcentagem de 10% doada e não a totalidade como foi por anos. Camisetas do vampirinho passarão a ser vendidas e não mais doadas ou sorteadas em eventos. Porque não caem do céu, eu pago para serem confeccionadas, Da mesma forma aulas e palestras terão valores de investimento. Quem necessitar de uma bolsa deverá passar por testes e contribuir com os projetos e não mais da forma como era, bolsas distribuídas apenas porque o indivíduo não podia pagar e sem nenhuma contribuição da parte do bolsista.


Esta é a única forma de continuar pesquisando e produzindo, cobrar pelo meu trabalho como qualquer pessoa faz. E nunca mais demonstrar um sucesso fictício porque isso só serve para atrair invejas e intrigas.

E, por fim, declaro ter VERGONHA de ter me intitulado por tanto tempo como filantropa porque este comércio por trás das doações me enoja!


Se você esperava um singelo artigo orientando sobre filantropia talvez tenha se decepcionado mas se você busca conhecimento real e profundo do mundo em que vivemos e de como funciona a diferenciação entre o que vemos/interpretamos e o que de fato é na prática, bem-vindo(a)!


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